Dançando frevo por trás da arte e filosofia do passista
- Denilson Miatto
- 2 de fev.
- 5 min de leitura
Denilson Miatto, recebe o Mestre Ferreirinha do Frevo (José Ferreira da Silva Irmão), um renomado passista de rua e mestre do passo de Pernambuco, reconhecido por seu estilo "mungangueiro" e por ser um defensor da tradição do frevo. Aos 66 anos, ele atua na coordenação de passistas, movendo diversos grupos em ensaios no Recife Antigo.

Arte: Denilson Miatto / AuroraPE
AuroraPE: Ferreirinha, para a gente começar a entrevista de hoje, eu queria te perguntar como foi que começou a sua história com o Frevo?
Ferreirinha do Frevo : Ah, sempre quando a gente é criança, a gente fica olhando as festas e aí bota uma coisa, pula assim e tal. Treze anos é a minha reminiscência de lembrança. Aí na casa do meu avô, é o Quartel General, ele fazia uma festa interna de mascarados e meus tios saíam para o Recife, na Rua Imperial, o Pão Duro e o Prato Misterioso. É nesses dois aí que eu fico brincando na minha criancice a partir dos treze anos.
AuroraPE: Então foi desde muito novo que você começou a frevar?
Ferreirinha do Frevo: Comecei cedo, depois fui para o quartel, o pessoal disse que agora ia ser homem, que não podia brinca mais carnaval. Fui trabalhar um pouco, aí engordei, aí para diminuir a banha, disseram que eu tinha que andar cinco voltas no 13 de Maio. Duas vezes na semana eu digo, peraí, eu vou para a escola de frevo.
E a partir daí, eu comecei a estruturar e terminou dando em carreira, porque participei de concurso, aí fui pra Europa, viajei duas vezes, três e por aí vai.
AuroraPE: De tantas coisas que tem pra se fazer e ser no carnaval, por que você decidiu ir para a dança?
Ferreirinha do Frevo: Porque na dança, o seu instrumento é o corpo. E quando você dança, a pneuma, a existência da pessoa está exatamente no corpo como instrumento. Então você não precisa de muito capital.
Imaginem um saxofone, três mil reais, dois anos de ensinamento, aquelas partituras, e o corpo não. Então você só se joga e, principalmente, a dança frevo que não tem uma norma rígida. A liberdade é o tônico que enfatiza essa dança. Óbvio que a gente precisa de um aprimoramento técnico, mas a rua é o espaço correto e o palco de todo passista de frevo. Foi por isso que eu me dediquei, me dedico e estou me dedicando sempre.
AuroraPE: Ferreirinha, você acredita, que da década passada para cá, tivemos alguma evolução no frevo enquanto parte do Carnaval do Recife, recebeu mais melhorias ou atenção do poder público?
Ferreirinha do Frevo: Digamos que o concurso de passista ainda está com um valor muito baixo com as premiações de um só primeiro lugar para passista de rua, devia ter três lugares. O valor não acompanhou o mesmo valor, por exemplo, do Rei e da Rainha, então nesse aspecto o local não está tendo segurança, vai muito pouca gente, e nesse aspecto, para o concurso de passista, ainda está muito aquém.
Embora que o Carnaval todo teve uma evolução, ele teve uma queda antes de 2000, mas se levantou de uma forma abrupta, digamos assim, por felicidade, mas só ficou restrito ao Recife antigo e não além.
Antigamente o Carnaval era em todas as ruas e nas praças de todos os bairros tinha alguma coisa. Nesse sentido, ele encolheu para ser um palco destinado a só as pessoas assistirem e não brincarem, como é a forma de antigamente. É por isso que luto para o passista de rua estar na rua brincando e chamando o povo para brincar o Carnaval, que é o mais importante e o mais interessante para as pessoas ver que a nossa identidade contagia e dá saúde.
AuroraPE: Você acha que realmente precisaria de um pouco mais de investimento, precisaria de um olhar um pouco mais carinhoso para o passista?
Ferreirinha do Frevo: Sem sombra de dúvida, é muito importante dizer algo a respeito do passista. O passista vem da capoeira. Então a sublimação da capoeira na dança é um processo de resistência. Inclusive, Capoeira Frevo e Passo, que é um livro de Valdemar de Oliveira, ele diz que a dança engesou a música.
Antes se tocava dobrado, machinha, machiche, e com os capoeiras na frente fazendo evolução, os músicos sem querer ou intuitivamente aceleraram a marcha dessa dança e deu no Frevo. Então o Frevo criou-se um gênero por causa dança. E a gente sabe que o estruturalismo do Estado permeia e invade. E sempre a dança, que é uma dança de pobre, de negro, ele sempre fica reboque da música que veio das bandas de música, dos militares e tal e tal. Então isso aí tem que haver uma reparação real.
Inclusive os valores que recebe um passista que dança Frevo não está compatível com o que um músico ganha, por exemplo. Então isso aí é de extrema importância e que o Carnaval se desloque, não do centro saia para pegar os outros âmbitos, que isso aí é de fundamental importância para não ficar só com o capital de mercadoria.
AuroraPE: Quais são os próximos passos enquanto carreira, e o que a gente pode esperar desse Carnaval e dos próximos que virão?
Ferreirinha do Frevo: Eu estou num momento maravilhoso, porque eu desenvolvo um projeto chamado Frevosofia, que cola com os pensadores da Grécia Antiga até agora, fazendo uma permeação entre Carnaval, a palavra, e o processo de instigação e reunião social de um grupo de pessoas. Então isso, para mim, é de relevância.
Para o futuro, eu tenho aí uma promessa, mas vai depender do capital, e era bom que o turismo e a sociedade se perguntasse. A gente tem um encontro em Bruxelas, 717 edições de um festival de bonecos gigantes. E a gente está com convite de honra, é a primeira vez que o Brasil está sendo convidado. Só que faltam verbas para a gente encarar esse procedimento.
Então eu já estou integrado a esse movimento, e eu esperava que as autoridades competentes tivessem um olhar carinhoso para isso. Isso é convidar a gente, e a gente mostra a carta, e mostra as possibilidades, as dificuldades, e onde é que a gente entra com a propaganda do próprio governo, do próprio Estado, e isso tudo é bom até para o Brasil,
AuroraPE: Qual o recado que você deixa para a galera do frevo, e para quem vai curtir o carnaval, agora em 2026?
Ferreirinha do Frevo: O recado mais importante é que você se vista do espírito de criança, sem a violência determinada por um rancor. Se vista de criança e venha brincar e pular, amarre uma fita, faça qualquer fantasia simples que seja, pegue sua criança e venha para os blocos, para os frevos rasgados, para as ruas, para o claboquinho, para a ciranda, para onde for, o importante é que você tenha o espírito da criança.
E tendo o espírito da criança, você vai ganhar, assim, uma vontade de viver com mais, o aqui e o agora, com mais felicidade, com mais êxtase, com mais leveza.










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